Voltei pra lá.
E foi em 10 minutinhos
Certa feita, no meio de mais uma semana enlouquecedora trabalhando fazendo “só um textinho aqui” pra trocentos clientes em uma determinada agência de publicidade, cansei.
Não que tenha sido do nada, nem que eu tenha largado tudo. Afinal de contas a vida adulta cobra muitas coisas em troca da paixão de viver debaixo de um teto e ter comida na geladeira e a energia pra ligar ela na tomada. Enfim. Cês entendem né?
Tudo isso só pra dizer que, mais uma vez me joguei na internet em busca de alguma forma diferente de reacender a paixão por algo que eu sempre tive e que, cada dia mais, parece que morria nos meus braços, respirando com dificuldade: escrever.
Foi aí que, caçando uma água fresca eu encontrei a Seiva. E lá no meio dela, uma oficina gratuita, a “Pequenas Grandes Histórias”. Quem ministrava era Aline Valek. Ela chegou com um papo cru, realista de dar gosto de ouvir.
Com um pé tão fincado no chão que eu tava quase sentindo o gosto da terra só de ouvir. E ainda assim, uma paixão por contar histórias e por escrever tão sincera, que dava pra sentir o respeito ao processo em cada palavra que ela trazia depois da outra.
Quando a gente escreve….a gente sabe bem o peso da escolha que cada palavra vai construir naquilo que a gente quer falar.
Ela veio, falou, mostrou, fez o seu, fez a gente fazer o nosso, e cabou. Dali nasceu o que você vai poder ler daqui a pouco. Mas antes, o exercício:
“Continue a história em escrita livre” me dizia o slide, no alto de uma quinta-feira às 22h00.
Aquilo ali, pra mim foi quase um murro! Eu queria água fresca e a mona me vem com pedra na mão, pra quem escreveu “Compre agora/Saiba mais/Confira/Acesse o site” o dia todo??? Genial, ela. Fiquei extremamente agradecido!
A ideia era partir de um trecho descolado de uma “narrativa misteriosa”. Que eu fiquei feliz demais por nunca ter visto na vida. A gente tinha 10 minutos no relógio e blau. Cada um que se vire com seus miolos e caminhos.
Pra não enrolar muito, vai primeiro a premissa do exercício e logo em seguida minha ação durante esse um sexto de hora que me refrescou mais do que as 8h48 seguidas de trabalho. Ó só, primeiro a premissa, compartilhado por ela, depois sou eu:
“Os primeiros meninos que viram o volume escuro e silencioso que se aproximava pelo mar imaginaram que era um barco inimigo. Depois viram que não trazia bandeiras nem mastreação, e pensaram que fosse uma baleia. Quando porém, encalhou na praia…”
…viram que se tratava de um tanque de guerra do tipo anfíbio e então…” Ah não João, nem era de soldado que a gente tava brincando, toda vez isso?! Brinca direito!
João e Guilherme estudavam de manhã e, todo dia à tarde, brincavam de inventar coisa no fim da rua. Um era viciado em guerra o outro em fantasia. As duas coisas se misturavam quase sempre em uma proporção que desafiava um certo ditado sobre ter mais de uma cabeça.
“Então fala outra coisa depois, sei lá. Tudo tem que ser velho pra ser legal?” Reclamava o soldado que tirava de guarda seu galho, da altura dos olhos, enquanto cutucava qualquer tampinha, talvez pedra, no chão.
Nem sempre era assim. É que sustentar tanta história todo dia, às vezes era cansado mesmo. Soltar a corda eles até soltavam vez ou outra, mas tinha dia que o santo não batia. Ainda assim não se desgrudavam. No fim, daqui dez minutos nenhum dos dois vai lembrar da guerra mesmo.
E ali não tinha só os dois. O lugar era palco de quase toda criança da Rua do Alho, que embicava numa estrada de terra, com saída pra um barranco enorme da mesma terra vermelha. Terror de qualquer mãe que descobre tarde demais que o filho não lembrou de tirar o uniforme.
Não tinha carro, mas tinha cavalo. Não tinha sinal, mas tinha mato. Não tinha graça nenhuma pra qualquer um que já saiba o que é VR ou INSS. Mas tinha um tesouro infinito que vinha dali: era restaurante, pista de corrida, praia, floresta, castelo...
Era o mundo todo num lugar só.
E se você fizesse esse exercício, escreveria o quê?


Que lindo! Me lembrou da escrita de livros que eu lia na infância (e não sei por que especificamente Não-me-toque em pé de guerra)