Primeiro de cinco
Perto da esquina, segunda-feira 07h28 da manhã. Um sentimento amargo já puxava na boca antes mesmo de tudo acontecer.
Faltava apenas dois minutos para que tudo acontecesse.
A esse ponto o bater de asas da borboleta era uma chave rodando apressada e o batucar da borracha descendo dois lances de escada até pisar nas flores amarelas que cobrem o chão nessa época do ano.
O primeiro dos cinco já tinha começado. Era 7h29 quando a suspensão à ar chiou e o busão passou sem nem olhar pro lado. Sorte a dele que evitou ouvir ser chamado de tudo que é nome.
Poxa, cinco minutos adiantado numa segunda-feira é muita sacanagem.
O passo acalmou, voltando pra trás, nem adiantava seguir. Agora só 8h30 e aí já é tarde demais. Voltou, sentou, tomou mais um café, acendeu sabe-se lá quantas mil substâncias enroladas num papel e tragou. Nenhuma delas, nem o café barato sem açúcar, eram tão amargas quanto a sensação que sentiu.
Não é nem 7h40 e eu já me fodi com vinte conto em carro de aplicativo. Respirou.
Finalizou o cigarro e o café. Bateu. 7h55 já saindo do banheiro, pelo menos agora o atraso valeu! Era o que tinha pra deixar o fato menos merda. Justo ela! Pensou em pedir o carro, lembrou que era melhor esperar passar das oito pra dinâmica mudar.
Seis reais a menos depois, chegou no portão do trabalho às 8h30. Pulou uma perna pra fora do carro enquanto desejava um ótimo dia pro motorista e o fone foi junto. Meio segundo depois, uma RAM branca de praticamente três andares o pegou.
Acertou em cheio. Abriu por dentro que chegou cair pra fora. Fodeu. Era o da direita, o que abafava mais a sala toda, já que sentava na primeira mesa à esquerda.
Bateu o dedo era 8h34. Engolia o amargo à seco desde às 06h00, primeiro de muitos alarmes do dia. Nem o computador tinha ligado e a vontade de ir embora era imensa.
Sentou. Apertou botões como de costume. Escreveu o que tinha na pauta toda do dia. Infelizmente, terminou e não era nem 11h00 ainda.
Se não fosse essa mania besta de “presencial” não tinha acordado 6h20, não tinha tomado café com pressa, não tinha perdido o busão que passou mais cedo numa segunda, nem gastado quase vinte conto só pra ir ligar o computador que abre o mesmo programa de escrita que o seu, só que longe de casa. Sem falar do fone!
Nada disso tinha acontecido. Nada! Nem esse texto feito à mão e ódio às 15h31 de uma tarde de segunda mal começada.
120 conto a porra de um fone de ouvido sem fio é de fuder.

